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Texto extraído do livro : "YOGINI - Revelando a Deusa interior" , de Shambavi Lorain Chopra


Aham prema.
(Eu sou o Amor Divino)

No Bhavani Nama Sahasra (Mil Nomes da Deusa Bhavani), o pundit Jankinath Kaul explicou de forma bela o que seria uma yogini: “Yogini é quem possui poderes mágicos”. Shakti, o poder supremo, em sua forma de Durga, recebe o nome de “yogini”: Ela assume várias formas e diversas energias Divinas para manter a harmonia no Universo, para combater o mal e dar suporte ao bem. A mulher que obtém um estado transcedental em seu sadhana retorna como uma yogini celestial, ou Bhairavi, uma adepta feminina do yoga. Ela carrega em si a energia de Durga.

A verdadeira yogini é a mulher iluminada dotada de uma paixão exuberante, poderes espirituais e uma visão interior profunda. As yoginis transmitem um sentido de liberdade e pura maestria em tudo o que fazem. Com seus olhares poderosos, são capazes de hipnotizar até mesmo um grande yogue e são ainda capazes de mudar a sua forma à vontade. Os eruditos tântricos descreveram as yoginis como mulheres independentes, francas, diretas, honestas e dotadas de um espírito gracioso. Sem elas, o yoga pode falhar em seu objetivo e permanecer estéril.

Os textos shaktas oferecem honras tanto às mulheres como à Terra, pois descrevem ambas como fontes de energia, vitalidade, bem-estar físico e espiritual. Ao observar esta analogia entre uma yogini e a Terra, o Chakrasamvara – comentário tibetano do século XI – afirma que: “Ao reconhecer uma yogini que o deleitará e lhe transmitirá energia e poder, e sentindo-se apaixonadamente atraído por ela, se o aspirante não adorar essa yogini, ela não o abençoará e não surgirão as realizações espirituais”. O livro Passionate Enlightenment, de Miranda Shaw, que recebi de Lokesh Chandraji, foi o primeiro que expôs o mundo da yogini do ponto de vista budista.

Segundo o pensamento hindu, a yogini representa o próprio yoga shakti, a kundalini, bem como os poderes que residem nas deidades femininas dos diferentes chakras. A yogini traz em si o poder do yoga e pode despertá-lo nos demais, não apenas em geral, mas em qualquer ponto ou local do corpo ou da mente. A habilidade de um homem de atingir estágios superiores de yoga pode ser facilitada por sua associação com uma companheira que reflita essa energia.




Assim como uma deusa abençoa e beneficia seus devotos, e a shakti vivifica suas práticas biológicas, culturais e religiosas, a mulher pode canalizar esta força vital ou energia espiritual para seu consorte-devoto. A mulher não fica mais exaurida quando fornece nutrição espiritual do que uma mãe ao nutrir sua criança. De fato, isso faz com que energias mais profundas se manifestem dentro dela.


Esta energia espiritual não é algo que um homem possa extrair ou tomar de uma yogini à vontade. Ela escolhe quando e a quem conceder suas bênçãos. A habilidade da yogini de intensificar o desenvolvimento espiritual de um homem depende de que sua divindade inata esteja desperta e manifeste seus frutos por meio de suas próprias práticas de yoga, que incluem visualizar a si mesma nas várias formas das deusas e investir-se com suas aparências e ornamentos, expressões de ternura e ira e dos poderes sobrenaturais que permite libertar os seres. Ao conferir energia e graça a um homem – abençoando-o ou dando-lhe poder – ela não enfraquece, mas, pelo contrário, compartilha sua energia voluntariamente com alguém que ganhou seu favor, por satisfazer as várias exigências que ela impõe.


Tal relacionamento ocorre em paralelo aos relacionamentos humano-Divino no que se refere ao fato de que a deidade é a benfeitora e o devoto-humano, o beneficiário. Ainda que a deidade possa derivar alguma gratificação do relacionamento, o devoto tem muito mais a ganhar do que o objeto soberano de sua devoção. O que os suplicantes, em última análise desejam de sua deidade é o resgate ou a liberação total, e é isso que os homens tântricos devem procurar obter de seus relacionamentos com mulheres espiritualizadas. Os textos tântricos reiteram que o homem não pode ganhar a iluminação sem respeitar a mulher e se aliar internamente a ela. A beneficência de uma mulher é uma resposta graciosa e ainda voluntária à súplica, homenagem e adoração de seu devoto.


A deusa é uma grande yogini, devotada a Shiva e, contudo, equipara Seus poderes. Ela é a incorporação da pura energia, a mãe e uma matriz para todas as manifestações, a fonte de todo o tempo, espaço e criação. Enquanto praticavam yoga juntos, shakti aceitou Shiva como seu guru, e Ele ensinou-lhe os modos de ser transcendental para orientá-la em sua liberação final. Shiva, por sua vez, também aceitou shakti como Seu guru, e ela O iniciou em sua liberação final e O pôs em contato com o supremo poder da consciência.


A Deusa Chhinnamasta, a deidade que decepa sua própria cabeça simboliza a grande yogini, a maravilhosa consciência situada além da mente. Ela representa a abertura do terceiro olho de onde surge o raio da percepção direta que destrói toda dualidade e negatividade. Ela é a yoga-shakti ou o poder do yoga em sua ação mais radical de conceder a iluminação. por isso, ela é também conhecida como Vajra Yogini. Este vajra é a força iluminadora suprema do ser interior.

Chhinnamasta é a Para Dakini, a suprema e principal das dakinis, a deusa do caminho do yoga, e as yoginis manifestas como os poderes dos chakras. Os sadhakas que buscam trilhar o caminho dos poderes yogues ocultos deveriam adorá-la, como é reiterado por David Frawley em seu livro Tantric Yoga and the Wisdom Goddesses, que a invoca por meio do mantra baseado em seu nome Vajra Vairochani. Isso facilita todas as transformaçãoes interiores de modo radical.

A yogini também é Bhairavi, ou a Deusa do Fogo, situada no muladhara ou chakra raiz. É ela quem se converte em Chhinnamasta quando atinge o terceiro olho e abre o chakra coronário para o além. Seu sangue é a luz que ilumina a tudo.

Maria Madalena era uma dessas yoginis, que manifestava seu shakti por meio do fluxo de luz de seu coração e alma. Seu amor Divino era incondicional e independia das situações externas e dos dogmas. Contudo, o amor divino não se limita ao asceta. Em minha compreensão do Tantra, se dois seres evoluídos espiritualmente se unem em amor incondicional, também podem criar um campo de energia muito positivo e raro, que exsuda altos níveis vibracionais de paz e amor para o Universo.

As culturas antigas – Egito, Grécia, Tibet, Índia – contam com tradições esotéricas que glorificam o poder iniciatório da mulher. Ela é considerada a sacerdotisa suprema, que manifesta para nós todos o conhecimento e os poderes superiores. Ela é Sofia, a origem e a fonte da sabedoria ou prajna, o discernimento mais profundo da natureza de tudo. Os ensinamentos tântricos enfatizam a importância da beleza física no companheiro ou na companheira, mas apenas para estimular inicialmente e então elevar a paixão do plano sensual para o plano espiritual. A beleza da alma ultrapassa a beleza física.

O poder “iniciatório” da mulher causa espanto, pois provê a força da paixão necessária para desenvolver o misticismo experimental. Ao compartir os segredos do amor, a mulher pode conceder poder transcendental a seu amante. A maior forma de Shakti é a liberação da expressão direta da energia-sabedoria, que cria uma transformação jubilosa. A mulher pode iniciar seu parceiro em tais experiências místicas por meio da confiança, rendição a ideais superiores e espontaneidade. Quem inicia é a deusa interior de cada mulher.

Ser uma yogini é a meta espiritual mais elevada de todas as mulheres. É o meio de se tornar uma com a deusa interior e manifestá-la na expressão que eleva o mundo que é de fato criação sua. Contudo, não se trata de uma aparência externa, mas de um estado de energia externa, mas de um estado de energia e êxtase internos que converte a mulher em uma yogini. Ela não pode ser manipulada, definida nem sequer inteiramente conhecida.


O Despertar da Śakti Interior


 


Quando minha esposa Māḷikā decidiu empreender este trabalho com o Círculo de Mulheres eu fiquei muito feliz. Ela pediu minha ajuda e apoio e sem exitar me prontifiquei ao ofício, não só porque esta seria uma oportunidade de apresentarmos o nosso trabalho em conjunto, mas principalmente pela responsabilidade que a causa exigia.

Nos dias de hoje está ocorrendo uma emergência espiritual do resgate ao Sagrado Feminino. Muitos são os movimentos que estão na vanguarda desta nova alvorada que, de tão nova, se arrasta pelas noites do tempo. Mesmo solapado durante incontáveis períodos de tempo, este movimento, esta energia, sempre esteve vibrando no interior de cada um de nós.

O que me sensibiliza no trabalho de Māḷikā – e o que o diferencia – é sua capacidade em aplicar as técnicas práticas e filosóficas do Tantra e do Yoga neste processo de resgate do Sagrado Feminino que para ela é o Retorno da Deusa. Neste sentido, é um trabalho de florescimento e refulgência entrelaçados na tapeçaria de toda a vida, pois as práticas tântricas propiciam as condições necessárias para o despertar do poder interior. Em sânscrito, este poder é chamado de Śakti. Na tradição tântrica, a Deusa ou a força cósmica feminina é adorada como Śakti, enquanto o Deus ou a força cósmica masculina é adorada como Śiva (o auspicioso). Śakti é o poder de Śiva. É um poder nascido da passividade extática de Śiva, do silêncio da mente, uma vibrante (Spanda) energia que emerge do Vazio como a vida que emerge do útero. Um poder que dá vida a todas as criaturas – seja lá qual o nível de manifestação em que se encontram – a partir de dentro, internamente. Portanto, Śakti não é apenas um poder externo, mas Svaśakti, o nosso próprio poder interno. Māḷikā nos ensina que para reverenciarmos a Śakti devemos reverenciar o nosso verdadeiro poder interno, o qual reconhecemos como o poder de nossa própria consciência, o ventre que dá nascimento a energia da iluminação.

Nas tradições Śākta, o princípio causal ou matriz universal é denominado Mahā-Śakti e como quintessência única e soberana, manifesta a Si mesma tanto como o aspecto estático em seu modo transcendente quanto como o aspecto dinâmico e criador em seu aspecto imanente. Para os Śāktas, Mahā-Śakti é Śrī-Mā, a Mãe que concebe, dá a luz e nutre o Cosmos que sai de suas entranhas (garbha-yoni) para existência plena.[1]

A grande Mãe, Mahā-Śakti, como a vibração primordial e absoluta, é denominada prāṇa-śakti-kuṇḍalinī porque se faz presente como um núcleo de consciência que revela o verdadeiro Eu em todos os nós. Ela é pura onisciência e sua natureza (svābhāva) é manifestar (sṛṣṭi) a Si mesma como o princípio da vida. A Devīgītā (II: 36) diz: Ela é o princípio da vida entronizada no coração de todos os seres.

Os Śāktas cultuam a feminilidade como um símbolo, e o corpo da mulher como o cálice sagrado que guarda o aspecto feminino do Divino. Este aspecto que coexiste tanto no homem quanto na mulher é prakāśa-vimarśamaya, a kuṇḍalinī, a misteriosa presença divina que, como centro de poder reside no veículo de manifestação psicofísico, vivificando-o como o Eu Real em todos os seres.[2]

Existe um texto tântrico muito bonito chamado Tripurārahaṣya. Nele nós lemos:

Eu sou a inteligência da qual emana o universo e da qual ele é inerente, como um reflexo no espelho. Os ignorantes acreditam que eu sou simplesmente matéria inerte, mas os sábios me vivenciam como o seu verdadeiro Ser. Eles me vislumbram quando suas mentes se tornam tranqüilas e claras como um oceano sem ondas.

Brahma, Viṣṇu e Śiva, os Deuses de todas as direções e suas energias, todas as entidades em todos os planos da existência, são manifestações de mim mesma. O meu poder é vasto demais para ser imaginado. Contudo, os seres não me conhecem porque suas mentes estão amortalhadas na ignorância. Mas este também é meu poder.

A suprema sabedoria é aquela que acaba com a ilusão de que qualquer pessoa ou qualquer coisa exista separada de mim. O fruto desta compreensão é a ausência do medo e o fim do sofrimento. Quando a pessoa compreende que todos os ilimitados universos são apenas uma fração de um átomo na unidade de meu ser; que todas as inumeráveis vidas nestes universos são um fio de vapor em um de meus sopros; que todos os triunfos e tragédias e que o bem e o mal em todos os mundos são meramente meu jogo espontâneo e descompromissado, então a vida e a morte cessam e o drama da vida individual evapora como uma poça rasa em um dia quente.

Você está me vivenciando agora, embora não me reconheça. Não existe nenhum outro remédio para sua ignorância a não ser me adorar como o seu Eu mais profundo. Entregue-se a mim com devoção exclusiva e alegre e eu irei ajudá-lo a descobrir seu verdadeiro Ser. Resida na consciência tão continuamente e tão sem esforço quanto o ignorante reside em seu corpo. Resida em mim como eu resido em você. Saiba que, mesmo agora, não há absolutamente nenhuma diferença entre nós. Compreenda isso agora!

Aquilo que brilha em seu interior como puro Ser (Svaśakti) é sua majestade, a Suprema Imperatriz, a Consciência Absoluta. [...] O universo e todas as criaturas que estão dentro dele são aquela Realidade Última; sim, tudo isso é Ela sozinha.

O fragmento acima demonstra a crença e total devoção dos Śāktas. O Śaktismo (Doutrina do Poder ou Doutrina da Deusa) permeia a crença popular hindu, está presente em muitas escolas e cultos e é o âmago do Tantra.[3] A visão de Māḷikā e portanto o seu trabalho desposa essa doutrina. Contudo, ela não busca simplesmente ensinar sobre a Deusa, mas sim personificá-la plenamente, encarnando o divino em todas as suas atitudes. E estando ao seu lado, inconscientemente, o divino é evocado em nós. Māḷikā é um prisma que refrata inúmeros matizes do divino. Sua vida é a manifestação de Śakti, a energia da Deusa. Em nossa busca ela me ensina que a verdadeira humildade está enraizada na força inabalável do poder divino dentro de nós mesmos e que o desprendimento é uma compreensão profunda das atividades do ego. Para mim, Māḷikā é Kālī Ma, a manifestação da Mãe Divina em minha vida.

Através de seu trabalho, Māḷikā transmite sua experiência interior. Para ela não existe diferença entre a vida e o sādhanā; experiência externa e interna; vida pessoal e vida espiritual. Fruto de sua compreensão acerca do Tantra, isso expandiu a vivência espiritual de sua vida através da arte do ritual e da magia.[4] Māḷikā não molda sua experiência segundo regras preestabelecidas, aplicando técnicas artificiais a sua essência. Ela a possui energia necessára para fazer com que as técnicas funcionem, mas não depende delas.

Em nossa tradição espiritual existe um ditado muito pouco compreendido: No coração, um Śākta, na aparência, um Śaiva, nas congregações, um Vaiṣṇava. Sob todas as aparências os Kaulas perambulam pelo mundo.

Nas congregações, um Vaiṣṇava. Isso significa que em público o adepto une-se as grandes massas de adoradores cantando os divinos nomes de Deus com sincera devoção. As tradições denominadas Vaiṣṇavas correspondem a 70% da população hindu e são constituídas por religiões, cultos e seitas que reverenciam o Absoluto sob o aspecto do Deus Viṣṇu. Na aparência, um Śaiva. Com aqueles que possuem uma compreensão mais sutil acerca da tradição, o adepto – devotado a filosofia Śaiva – lança-se ao estudo e as secretas práticas de Yoga desta escola. As tradições denominadas Śaivas correspondem a 25% da população hindu e são constituídas por religiões, cultos e seitas que reverenciam o Absoluto sob o aspecto do Deus Śiva. No coração, um Śākta. Seja lá qual for a orientação religiosa externa, no âmago de seu ser, o adepto sabe que é filho da Grande Deusa, a Mãe Divina. As tradições denominadas Śāktas correspondem a 2% da população hindu e são constituídas por religiões, cultos e seitas que reverenciam a visão feminina do Absoluto em suas múltiplas manifestações e formas.[5]

Infelizmente, a palavra Śakti – assim como o termo Tantra[6] – é muito mal compreendida no Ocidente. Como o objetivo principal deste trabalho iniciado por Māḷikā é a emergência do Sagrado Feminino ou o Retorno da Deusa, procuraremos examinar, através dos textos postados nesta seção do site, o conceito de Śakti em seu contexto mais amplo como o poder da consciência universal. Iremos explorar a Śakti como a fonte subjacente a todas as forças da natureza, desde as forças físicas como o eletromagnetismo as forças espirituais como a kuṇḍalinī. Portanto, nosso estudo irá abordar o conceito de Śakti sob duas perspectivas fundamentais, i.e. do ponto de vista em sua manifestação natural e do ponto de vista das profundas práticas yogī-s como mantras e meditação. Desta maneira, abordaremos a Śakti que opera no mundo da natureza e nos estados superiores de consciência dentro de nós.

Para que possamos cumprir esta meta, precisaremos abordar inúmeros aspectos da tradição tântrica, desde as elevadas concepções filosóficas do Śaivismo da Caxemira, a romântica e apaixonada visão do acetismo devocional do Śaiva Siddhānta e as concepções tântricas de Śaṅkara. Esta busca no âmago da tradição tem como único objetivo se agregar a visão particular de Māḷikā que é ajudar despertar a Deusa e seus poderes dentro de cada um de nós, energizando a Śakti em nosso Ser mais profundo para a realização de nossa verdadeira natureza.

O trabalho de Māḷikā tem uma característica marcante. Ela sempre se preocupa em demonstrar o caráter interno dos processos yogī-s, como a prática dos mantra-s, meditações, a imersão profunda no auto-descobrimento de si mesmo. Assim, como reflexo desta visão, nesta seção não iremos abordar os Yoga Externo, i.e. a visão popular das práticas de āsana-s, mas o Yoga Interno, através de relatos pessoais acerca do Despertar da Deusa e instruções práticas acerca dos processos tântricos para despertar o yoga-śakti dentro de você, conduzindo-a em sua própria jornada interna a regiões desconhecidas, imprevisíveis, mágicas e sublimes.

Śakti é a descida da Graça Divina. A Mulher possui o Poder e a Potência para criar uma nova vida. Ela possui a energia da beleza, do deleite e da criatividade. Este poder transformativo da Mãe Divina é a Śakti que opera por detrás de todas as grandes mudanças no Universo e traz ao ser humano a grande transformação, a verdadeira iluminação. O propósito do Tantra é energizar a Śakti adormecida dentro de nós, desdobrando todos os diferentes níveis e ritmos de seus movimentos, fazendo com que ela busque naturamente sua morada nativa no Supremo.




Fernando Liguori
Anuttara Kulācārya

Notas

[1] Na linguagem sânscrita, o Absoluto é denominado com diferentes nomes conforme a tradição. No Advaita Vedānta Ele é Brahman Nirguṇa; nas tradições Śaivas Ele é Paramaśiva ou Paraśiva; nas tradições Śāktas o Absoluto é chamado de Mahā-Ādi-Devī ou Mahā-Śakti. Nas tradições Kaula e Trika o Absoluto é chamado de Kula. As exposições filosóficas e teológicas das diversas tradições são genericamente denominadas brahmavidyās, palavra que significa conhecimento do Ser ou conhecimento do Absoluto. Nestas exposições teológicas e filosóficas, a manifestação cósmica é a forma revelada da grande Hierarquia Divina, e contém seres manifestos em diferentes estágios de restrição e onisciência do Absoluto, que embora seja o Ser Uno, se revela como muitos. Assim, o Absoluto – Kula –, como um Ser transcendente, revela a Si mesmo como a essência imanente do Todo (pūrṇa), que surge como a Hierarquia Divina, i.e. o Cosmos, então designado Akula. A Hierarquia é formada por infinitos raios que emergem do Kula, que como centro (biṅdu) de poder, os vivifica, transformando-os em seres transcendentes. Portanto, a Hierarquia é composta de infinitos seres em vários níveis de restrição consciencial, cada um sendo um raio emanado do Kula, a Absoluta Fonte de toda Vida. Alguns seres estão próximos da condição humana, outros muito acima dela, e neste caso, os humanos os vêem como deuses. Entretanto, por detrás das formas (rūpa) percebidas, todos os seres são raios de luz idênticos. O raio maior é considerado o Ser primevo, princípio causal da manifestação divina, fruto quintessencial na transição entre a transcendência e a imanência. Este Ser que é a onisciência dinâmica do Absoluto tem – para os humanos – duas faces, uma masculina e outra feminina que coexistem em perfeita harmonia. Seu veículo de manifestação denominado Karaṇa Śarīra ou corpo causal é prakaśa, seu corpo de luz. Este Ser dual ou Ardhanārīśvara contém os aspectos masculino e feminino, como a forma de onisciência estática (cit), denominada Śiva, e de onisciência dinâmica (cidrūpiṇi), denominada Śakti. A manifestação do Universo ocorre quando Ardhanārīśvara se dissocia nestes dois aspectos, do qual a forma dinâmica é o poder pelo qual Ele é capaz de manifestar-Se, revelando a Grande Hierarquia Cósmica com seus múltiplos espaços de consciência, denominados dimensões ou universos. O aspecto masculino e estático é denominado śava (cadáver) e somente se torna Śiva pela presença dinâmica de sua consorte feminina ou Śakti. Por isso, algumas representações tântricas mostram a Deusa sentada sobre o corpo de Śiva, que jaz como um cadáver sob ela. Por esta mesma razão, a postura sexual mais utilizada nos rituais tântricos é a viparīta-ratī, na qual a mulher (sādhikā, suvasinī, dūtī, dombī ou nairātma), assumindo a postura dinâmica, senta-se sobre o homem (sādhaka) que permanece passivo como um espectador do ato em curso, para a geração das vibrações ou poderes relacionados com a mística da criação.

[2] A maioria dos textos populares que versam sobre a kuṇḍalinī enfatizam que ela é um poder, uma energia, uma vibrante ondulação de poder ou um poder interior que foi posto em movimento. Essas descrições ou interpretações passam a idéia de que a kuṇḍalinī é um poder que reside em nós em estado latente. Algo que possuímos como p.e. a expressão: tenho um corpo, uma mente. Entretanto, o que denominamos como kuṇḍalinī é, de fato, um aspecto de nosso próprio Eu interior, e não algo que o Eu, o Ser, tenha ou possui.

Embora a experiência do Ser seja de natureza inefável e incognoscível, ele é uma imagem do Absoluto e como tal também admite dois aspectos: o estático e o dinâmico. No Tantra, o aspecto estático é Śiva – Prakāśa –, a consciência transcendente que está além do espaço e do tempo. O aspecto dinâmico é śakti-ciḍrūpīnī, vimarśa-śakti ou kuṇḍalinī, o aspecto imanente que, embora seja dinâmico, se restringiu e se limitou a um espaço restrito de consciência, denominado estado de vigília (jāgrat avasthā). Por esta razão, muitos autores a denominam equivocadamente como princípio estático da consciência, afirmando que ela deve ser colocada em movimento, quando na realidade ela somente deve ser expandida pelo suṣumnānāḍī em direção aos portais (cakra) que nos levam à Luz Infinita dos espaços conscienciais superiores.

A identificação entre a kuṇḍalinī e o Ser pode ser intuida ao lembrarmos que nas tradições Kaula e Trika somente o Eu é Real, tudo o mais são percepções fenomenológicas e ilusórias de sua atividade ou manifestação. Portanto, o aspecto dinâmico ou vimarśa é de fato a kuṇḍalinī, pois caso contrário Ela também seria um fenômeno ilusório e emergente da cognição, e sua elevação uma quimera.

A principal sensação de quem passa pela experiência da kuṇḍalinī é a de ascensão através de um túnel de intensa luminosidade que nos leva do espaço de consciência de vigília ao espaço de consciência do divino (turīya). Portanto, a sensação do poder serpentino ascendente é o próprio Ser em movimento, deixando para trás a esfera vivencial da mente instintiva e condicionada (manas), para ir à direção da esfera irrestrita onde a Luz é eterna (buddhi). Assim, a kuṇḍalinī não é algo que nos pertence, mas sim aquilo que realmente somos em nossa mais íntima quintessência: um poder infinito e eterno.

Ao expandirmos a kuṇḍalinī estamos nos libertando das limitações impostas pela manifestação, para agir e ascender à sua origem como uma grande experiência, denominada apropriadamente como līlā pelos sábios videntes (ṛṣīs) do passado, cujo significado é uma brincadeira ou diversão, no sentido de que a experiência da manifestação cósmica deve ser entendida e vivida como uma grande diversão em que somos co-criadores nos universos das vibrações e formas.

Dessa maneira, o objetivo do sādhanā tântrico ou Kuṇḍalinīyoga é elevar o nosso Ser à sua máxima expressão; assim o sādhaka vivencia a vida no universo das formas com a maestria que lhe permite participar da criação.

[3] Um aspecto mal compreendido do Śaktismo é a sua estreita associação com o Tantrismo – um conceito ambíguo, carregado de preconceitos que sugerem cultos obscuros nos templos ortodoxos do sul da Índia, magia negra e práticas ocultas no norte de Índia, inclusive sexo ritual no Ocidente. Na verdade, nem todas as formas de Śaktismo são de natureza tântrica, assim como nem todas as formas de Tantra são de natureza Śākta. Quando o termo Tantra é usado em relação ao verdadeiro Śaktismo hindu, que na maioria das vezes refere-se a uma classe de manuais sobre rituais, e – mais amplamente – a uma metodologia esotérica centrada no culto a Devī que envolve disciplina espiritual (sādhanā), mantra, yantra, mudrā e nyāsa, práticas que exigem a orientação de um guru qualificado após devida iniciação (dīkṣā) e de instrução oral para complementar e elucidar as diversas fontes escritas.

[4] Tantra é uma palavra sânscrita que possui inúmeros significados. Ela pode denotar uma urdidura ou trama de um tecido, a parte principal de um sistema filosófico, a origem de uma tradição, ordem (vidhi), regulação (niyama), escritura (śāstra), doutrina, regra, teoria ou tratado científico. Em princípio, qualquer tratado secular pode ser denominado como um Tantra, embora nem sempre seja tântrico na acepção da palavra. Sob o aspecto etimológico e de acordo com a tradição espiritual da Índia, o termo tantra é tradicionalmente derivado da raiz verbal sânscrita √tan, com a adição do sufixo de instrumentalidade tra, significando assim aquilo que estende, expande ou engrandece. Outra denominação dada ao termo fora expressada pelos sábios Vācaspati Miśra, Ānandagiri e Govinsdānanda, os quais consideraram a raiz verbal √tatri ou tantri como o sentido de origem de conhecimento. Portanto, Tantra é aquilo que expande ou engrandece o conhecimento pela vivência do espiritual e pela maestria na arte do ritual e da magia.

[5] Tradições tântricas que correspondem a 1% da população e são constituídas por um grande conjunto de tradições localizadas principalmente na intercessão das tradições Śaivas e Śāktas, embora haja também tradições tântricas de origem Vaiṣṇava.

[6] Śakti é um importante princípio, é o pilar central da tradição tântrica, uma senda espiritual que compreende a adoração das Deusas através de magníficos rituais e profundas meditações. O Tantra nos oferece um meio direto de acessar sua presença e portanto seus poderes através de uma tradição que nunca perdeu as conexões com sua graça.





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